Olhou para seu celular, já passavam das 11:40. Ela estava atrasada. Mas isso não lhe incomodaria tanto não fosse sua angústia e expectativa de muitos anos.
Olhou novamente para a porta, reconheceu a silhueta contra a luz que vinha da rua. Era ela.
Olhou para si mesmo, numa tentativa afobada de alinhar seu palitó, desamassar a camisa de linho, parecer bonito.
Quando ela se aproximou da mesa, ele imediatamente se põs em pé, pronto para lhe estender os braços, sem ressentimentos, como num consenso de paz.
Mas ela sentou-se imediatamente. Encarou seu prato vazio, como se estivesse frente à um militar de 64. E antes de qualquer questionamento, pôs-se à tortura. Torturou-se no mais profundo silêncio, entre sua boca fortemente franzida e mãos trêmulas marcadas pelo tempo. Seu olhar de ternura ela evitava.
Ele a buscava com olhos de carência. Ele sabia que ela fizera tudo aquilo para o bem dos dois. Daquelas vezes em que se deve decidir entre amor e o dinheiro. Claro que o amor fora o escolhido. E justamente por isso haviam se separado.
Para ele todos os motivos, razões e desculpas por trás daquela mulher sentada à sua frente já haviam sido superados. A única coisa que lhe consumia era a saudade. Coisa que o tempo não consegue evitar.
Não confessava a ninguém, mas desde o dia em que ela fechara a porta por trás de si, evaporando-se em esperanças, não havia uma única vez em que o telefone tocara e seu coração não começara a bater descontroladamente, à espera de ouvir aquela voz doce que lhe acalmava a alma em dias de incerteza novamente.
Não havia um único dia em que ele não ia dormir na expectativa de sonhar mais uma vez com ela. Já que suas lembranças iam aos poucos se esmaecendo e se modificando, assim como se fazem com os sonhos, na esperança de não precisar mais acordar.
Mas não precisava nem fechar seus olhos para sentir seu cheiro adocicado e sua voz de candura. Fazendo que sua alma aos poucos voltasse a acender.
Sua gravata lhe apertava a garganta. Teve a impressão de que quanto mais a soltava, mais lhe faltava o ar. Ao olhar para o pescoço dela, se viu refletido em um pingente prateado, já gasto pelo tempo. Seu coração vacilou. Ele havia lhe dado aquele presente. Muitas moedas juntadas e refrigerantes não tomados.
Os 30 anos em que estiveram separados começou a pesar travando um abismo entre os dois. Até o garçom percebera que aquela não devia ser uma hora adequada para lhe servir a segunda dose de whisky.
E sua angústia se tornou medo. O medo do esquecimento. E dos esquecimentos vieram as lembranças. E das lembranças o passado. Do passado o presente. O pingente. Os dois. Frente à frente.
Com voz embargada e cara retorcida pela tristeza, culpa, dor, vazios, úlcera, males, arrependimento, ela procurou suas mãos:
- Meu filho…
O coração dele sorriu. Ela lhe retribuiu o olhar. Bastou.